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e.n.t.r.e._.l.i.n.h.a.s

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As guerras podem ser silenciosas

Novembro 29, 2025

Nini

Pain is inevitable. Suffering is optional - Haruki Murakami

Há algo profundamente admirável na forma como algumas pessoas atravessam as suas dores em silêncio. Não porque sintam menos, mas porque escolheram um modo gentil de lidar com aquilo que lhes pesa. São pessoas que não fazem questão de anunciar febres, diagnósticos ou noites mal dormidas. Que não usam as fragilidades como bandeiras, nem procuram reconhecimento pelo que suportam. Cuidam de si com discrição, como quem sabe que cada batalha pertence, primeiro, ao coração que a vive. Esse tipo de serenidade não nasce da indiferença. Nasce da consciência. Da ideia de que ninguém à volta é responsável  pelos nossos tropeços, e que não é o mundo que tem de se ajustar às nossas dores, somos nós que escolhemos a forma de as carregar.

Para alguns, partilhar alivia, para outros expôr pesa. Há quem prefira arrumar as emoções com calma, longe do ruído dos olhares atentos, porque o simples facto de ser observado já acrescenta uma camada extra ao que se sente. A verdade é que existe beleza nesse recato. Naqueles que sabem estar presentes sem fazer sombra, que sorriem mesmo quando o corpo pede pausa, que escolhem a leveza mesmo quando o dia começa pesado. Gente que não transforma cada dificuldade num acontecimento público, mas também não diminui a própria dor, apenas a vive ao seu ritmo, no seu espaço, sem dramatismos, sem exigências. E é difícil não admirar isso: a capacidade de celebrar a vida mesmo quando ela não está no seu melhor. De ver o copo meio cheio não por ingenuidade, mas por escolha. De reconhecer que a vida nunca será perfeita, mas que ainda assim carrega momentos de luz suficientes para valê-la. Quem vive assim ensina, sem intenção de ensinar. Mostra que a força pode ser silenciosa, que a resiliência nem sempre grita, que a esperança pode ser um gesto simples: continuar a acreditar que, apesar de tudo, a vida é boa. E essa forma discreta de existir, tão honesta e tão serena, é um daqueles detalhes humanos que merecem ser vistos com carinho.

E, no meio de tudo isso, fica a vontade tranquila de cultivar esse mesmo modo leve de caminhar pela vida. Porque essa sou eu, ou sou a pessoa que a vida me ensinou a ser.

Nini 

 

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